terça-feira, 23 de dezembro de 2008

RICARDO CUNHA CANTOR E COMPOSITOR


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quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

O Gato Preto


Quando nasceu era branco, porém danado como qualquer outro gato, o bichano fez suas acrobacias e caiu num balde de tinta preta. Ficou a partir dai um gato preto, como outro qualquer.

Uma menina o apanhou e o levou para si, todos a criticavam como podia ter um gato preto, que trazia azar, era coisa de macumba.

A menina não se importava e até temia pela vida do gato. O bicho continuava danado, batia no cachorro, caçava, enfrentava normes ratazanas, porém ainda não vencia o preconceito.

Uma senhora protestante rigorosa, queria livrar o bairro daquele gato preto, pois dizia ser bicho do diabo, e havia quem o queria por sê-lo do diabo e fazer rituais de magia negra, sacrificando o pobre coitado, alguns religiosos mais prudentes apenas aumentaram suas rezas e ladainhas.

A menina vítima de tanta pressão, decidiu levar o gato para algum lugar seguro, o colocou num cesto e o levou para longe dali.

O gato brincalhão bem despreocupado pulou do cesto e continuou seu passeio sozinho assustando por onde passava, quando avistou um pássaro pulou para pegá-lo e de novo com suas peripécias caiu numa lata de thinner, removendo sua tinta, era novamente um gato branco, lindo como queriam não demorou muito para alguém apanhá-lo, foi levado, tomou banho e voltou a ser tratado, dessa vez como um gato de grã-fino, todos o amavam, e lhe faziam carinhos, porém o gato ficava na janela sempre a procurar algum novo desafio foi quando avistou uma enorme gata negra toda peluda, olhando para ele, pulou rapidamente da janela e se aproximou da gata que o recoheceu e o lambeu era sua mãe.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Ricardo Cunha na TV

GUMERCINDO: MANDINGA, PÉ-DE-PATO & QUIPROQUÓS - CAPÍTULO XIII


O dono do barraco feliz, chamou a mulher e os filhos, separou os quinhentos reais, valor do barraco e devolveu a Gumercindo o restante da soma que ajudou a contar.
Ainda segurava o dinheiro nas mãos quando ao entregar, Gumercindo o interrompeu:
- Leve todo o dinheiro.
- O que tu disse?
- Leve todo o dinheiro, compra rôpa e comida pros seus filhos.
O dono do barraco ficou calado, então emocionado arrastou a mulher para o canto, mostrou o dinheiro, guardou no bolso da calça, apanhou seus poucos pertences e rapidamente se retirou do barraco sem agradecer a generosidade de Gumercindo, que ficou observando a ida do homem, o fogo ainda aquecia a panela improvisada, o apagou e sentou-se numa cadeira velha enquanto sentia-se feliz por Ter conseguido um lugar para morar.
Colocou o carrinho dentro do barraco e tirou um cochilo numa cama velha que o antigo dono deixou.
Após o cochilo fechou o barraco com um velho cadeado e uma corrente enferrujada e levou a pouca sucata que tinha no carrinho de geladeira para a cooperativa.
Ao vender a pouca sucata que tinha, Gumercindo notou que o sujeito da balança também adquiriu um carro. Novo, bonito como não era comum aos seus olhos.
- Que carro bonito. – Comentou com o sujeito da balança, enquanto pesava a sucata de Gumercindo.
O sujeito fitou o carro, voltou sua atenção para a balança, observou Gumercindo e comentou:
- Comprei ontem.
- Comprou. – admirou-se.
- Comprei ué, por que a admiração? Trabalho pra quê. – aborreceu se o sujeito da balança.
- É que me parece ser um carro tão caro.
- Mais ou menos, comprei pra passear nos fins de semana.
- Eu também, comprei uma coisa ontem.
- Comprou? – admirou-se com o sujeito da balança, erguendo as sobrancelhas.
- Sim, um barraco pra mim morá.
- Um barraco? Onde arrumou dinheiro?
Gumercindo estranhou a pergunta do sujeito da balança e sem entender a reação deste, respondeu levemente aborrecido.
- Ora, eu não tô trabalhando não.
O sujeito da balança abaixou suas sobrancelhas ficou envergonhado com sua pergunta, disfarçou uma ponta de inveja e continuou o assunto:
- É claro, é que pensei que cê torrava tudo que ganhava com cachaça.
- Eu não bebo cachaça.
- É você já me disse.- sussurrou o sujeito da balança, encerrando a conversa, logo terminou a pesagem da sucata que Gumercindo lhe trouxe, acertou os trocados do valor e voltou a atenção para seu carro novo, enquanto Gumercindo saiu para uma nova coleta.
No caminho passou em um bar, onde comeu um salgado e um pingado, mandou caprichar no café com leite e tomou dois copos americanos cheios não queria parar cedo para o almoço, então decidiu se alimentar bem logo de manhã.
Após a refeição seguiu para o lixão, os urubus, fiel companhia daquele local se demonstravam numa pequena nuvem escura a alguns metros acima do lixão. Gumercindo os observou os admirou e continuava a empurrar seu carrinho de geladeira até chegar ao lixão.
Quando chegou, se tornou a atração do local, sendo apontado pelos outros catadores que cochichavam passar por eles.
Tamanhos cochichos, chamaram a atenção de Gumercindo que irritado os observava aborrecido, até que um dos catadores se aproximou:
- Ei Gumercindo, comprou um barraco hein danado?
Gumercindo estranhou a intimidade do sujeito com quem nunca havia conversado e com um aceno e sem graça fez que sim, o catador continuou a indagar-lhe:
- Ei Gumercindo, anda encontrando coisa de valor aí?
- As vezes, encontro.
O catador fez um bico com os lábios, assobiou abaixou a cabeça e voltou a conversar quando Gumercindo começava a vasculhar o lixo à procura de sucatas.
- Eu também moro na favela e já que a gente vamos ser vizinhos, agente podia nos conhecê melhor, que cê acha?
Gumercindo parou de vasculhar o lixo e se emocionou com a sugestão de outro catador, então voltou sua atenção num movimento leve, e com algumas lágrimas nos olhos respondeu com meio sorriso.
- Claro... podemos ser amigos.
O catador sorriu e olhou para os outros catadores que disfarçando os observava, com uma cara de cínico observou Gumercindo que lhe deu a mão.
Naquele dia Gumercindo arrecadou bastante sucata, mas apenas plásticos e papelão, pouca coisa de valor, com seus trocados garantiu o almoço e tomava banho no chuveiro improvisado de seu barraco, não sentiu saudades da ponte, mas sonhara com ela à noite e sentia falta do zum-zum dos carros na madrugada.
Nos dias seguintes começou a ajeitar seu barraco, arranjou panelas e mesa, além de roupas, não andava tão sujo e fedido, tomava banho dia sim, dia não era arredio a água, gostava, mas não o suficiente para banhos diários.
No lixão todos os catadores já o conheciam e lhe davam atenção, porém aproveitando da amizade iniciada começaram a lhe pedir dinheiro emprestado.
O primeiro a fazê-lo foi o catador que se apresentou com cara de cínico. Chegou até Gumercindo disfarçando, colocou a mão no carrinho de geladeira enquanto ele observava vasculhando o lixo e começou a conversa mole:
- Ei Gumercindo...
- Oi!- respondeu Gumercindo feliz abrindo um sorriso enorme e tocando o ombro do catador cara de cínico com sua mão direita.
- Sabe que é... Tá faltando comida em casa...não tô arrecadando quase nada...
- Sei ...- Gumercindo atento a conversa e sério arregalou os olhos enquanto ouvia e se emocionava com o que catador cara de cínico dizia, até comentar.
- Esses problemas judiam da gente.
- É pois eu tô precisando de dinheiro, cê não pode me dar uns trocados não?
- Claro.- respondeu Gumercindo ainda com felicidade.
Então pôs as mãos na cintura, retirou um novo pacote dentro de um saco plástico e indagou:
- Quanto você quer? – o catador cara-de-cínico viu aquele monte de dinheiro e respondeu:
- O que você puder me emprestar, depois eu te pago.
- Então leva tudo, amigo é pra isso não é?
Decidiu Gumercindo com o enorme sorriso ainda no rosto. O catador cara de cínico também sorriu, apanhou a quantia oferecida por Gumercindo com generosidade e saiu sem agradecer.
Gumercindo voltou a vasculhar o lixo, enquanto o sujeito se aproximava dos outros catadores e entre uma risada e outra conversa- vam, ao ouvir uma gargalhada do grupo de catadores, Gumercindo se emocionou, ficou feliz por ajudar alguém que precisava e acreditava que aquelas gargalhadas eram de felicidade, pelo catador Ter saído de uma situação tão difícil que é a de passar fome.
Arrecadou o que pôde novamente em seu carrinho de geladeira e foi vender na cooperativa.
Com o dinheiro que conseguiu com a sucata que vendeu, comprou seu almoço e guardou alguns trocados.
No dia seguinte, começou uma nova coleta, arrecadou outros trocados, fez sua economia na cintura e voltou ao lixão para outra coleta, sendo saudado ao chegar pelos catadores, outro deles veio lhe pedir dinheiro, novamente com conversa mole se aproximou:
- Ei Gumercindo, tô com umas contas vencidas tu não pode me emprestar uns trocados.
- Claro que posso. Quanto quer?
- Faz o seguinte, me empresta quanto tiver depois te pago.
Gumercindo fez o que o sujeito sugeriu e novamente deu-lhe tudo que tinha e novas gargalhadas se ouvia quando o sujeito voltava a se agrupar com os catadores.
O catador cara-de-cínico cumprimentava Gumercindo mas evitava se aproximar para uma conversa nos dias que se seguiram e o mesmo fez outro catador que também pediu dinheiro emprestado.
Logo outro catador se aproximou de Gumercindo e oferecendo sua amizade, pediu dinheiro emprestado. Dessa vez a soma havia sido maior, Gumercindo arrecadou uma boa quantia naqueles dias e econômico, havia gasto o mínimo possível, pensava em arrumar seu barraco e acreditava que o dinheiro arrecadado somado com o que lhe deviam, seriam suficiente para construir uma casa de alvenaria no lugar de barraco. Mesmo assim emprestou dinheiro para o terceiro catador que lhe pediu sem cerimônia deu-lhe novamente tudo que guardou, confiante no sujeito que prometeu lhe pagar cada centavo.
Numa outra semana Gumercindo já havia juntado outra quantia com suas três coletas diárias, guardava o suficiente para comer, não gastava com seu barraco e não havia recebido o dinheiro que emprestou para os três catadores, que quando o viam evitavam sua presença.
Outro catador, sabendo dos empréstimos veio lhe pedir auxílio, Gumercindo não viu problema em ajudá-lo, porém emprestou apenas metade da quantia, ficou receoso em demorar para receber.
Três dias depois outros dois catadores vieram pedir-lhe dinheiro, eram os sujeitos que o jogaram do caminhão que continuavam a coletar sucatas ali naquele local.
- Ei Gumercindo...- Chamou um dos catadores com um falso sorriso. Gumercindo os olhou de cima embaixo fez uma cara séria e perguntou em voz baixa:
- O que vocês querem?
- Sabe o que é Gumercindo, a gente queria te pedir desculpas pelo ocorrido no pau-de-arara...
Gumercindo cerrou os lábios e arregalou os olhos, não esperava essa reação daqueles sujeitos que lhe fizeram mal, eis que o sujeito continuou, escoltado pelo outro:
- Então Gumercindo, nós erramos.
- Mas nós estamos arrependidos, queremos teu perdão.
- Meu perdão?- espantou-se Gumercindo, que naquela altura da vida beirando os trinta anos jamais ouvira pedido tão forte. Então pensou enquanto refletia, coçava a cabeça com o boné.
Espichou as barbas com as mãos e decidiu perdoar os sujeitos.
- Perdôo sim.
- Que bom, sabia que tu era cabra de bom coração. – Gritou um dos catadores, cumprimentando eufórico, o outro fez uma cara de alegria e começou uma nova conversa:
- Já que nós somos amigos , acho que podemos contar com sua ajuda, afinal amigos são para ajudar.
- É ... acho que sim.- concordou Gumercindo sem pensar.
- Nossa situação tá braba Gumercindo, só catando lixo, catando lixo e nada de dinheiro.
- Mas por que não vendem na cooperativa?
- Aquele sujeito que vive na balança, TOCOU A GENTE DE LÁ, É RAÇA RUIM!- Exclamou. – Agora tu não né Gumercindo, tu é pessoa boa.
- Mas ele nunca me fez nada de mal. – retrucou Gumercindo ao catador que o abraçou antes de responder enquanto o outro lhe fazia sinais.
- Ele deve tá te enganando, mas isso tu descobre um dia, eu quero te pedir um favor como amigo.
- Peça...
- Nos empreste um pouco de dinheiro, estamos duros e sei que você vende bem sua sucata.
- Eu podia emprestar, mas já emprestei dinheiro pra esse povo todo e não recebi nada.
- Nós somos diferentes Gumercindo. – retrucou o outro catador que apenas fazia sinais durante a conversa. – Vamos te pagar certinho viu? Não é mesmo? – observou o seu parceiro com a cara fechada.
- Além do mais precisamos comer e tu não vai se vingar na gente né Gumercindo? Nos dê o que comer homem, amanhã pode ser tu que esteja precisando, pense nisso.
Gumercindo pensou, sentiu-se mal com aquela situação, lembrou-se da onça, que há muito não o incomodava, assustou-se e amedrontado decidiu:
- Tudo bem, tome aqui o dinheiro que tenho. – retirou o pacote e o entregou com sacola e tudo. – Me paguem até o final do mês tudo bem?
- Claro Gumercindo, amigão, até o fim do mês o dinheiro está na sua mão.
- Sabia que podia contar com tu Gumercindo comentavam os sujeitos se afastando cheios de felicidade, Gumercindo ficou feliz por estarem felizes e novamente voltou ao trabalho, decidiu que não juntaria dinheiro por enquanto, gastaria em seu barraco e no que precisava e no fim do mês, havia comprado algumas roupas que lhe deixavam melhor, suas roupas velhas e rasgadas assusta- vam até aos cachorros, além de incomodar-lhe com os olhares perscrutadores das pessoas na rua.
Suas coletas iam bem, não encontrou nada de valor como as placas de bronze, mas os papelões e plásticos eram suficientes para comer e manter seu barraco. Adquiriu madeiras novas para reformar seu teto que já sofria em época de chuva e reforçou sua porta temendo os ladrões.

sábado, 27 de setembro de 2008

GUMERCINDO: MANDINGA, PÉ-DE-PATO & QUIPROQUÓS CAPÍTULO XII




Os homens que acabaram indo naquele lugar como ele, disfarçavam e vasculhavam o lixo. Incomodados, abaixaram a cabeça e ficaram em silêncio enquanto Gumercindo se afastava.
Ele não sentiu ódio dos homens, nem mesmo rancor ou pena, apenas achou estranho que numa cidade enorme, acabassem se cruzando por ali. Decidiu esquecer o assunto, era passado e isso não o interessava.
Levou o saco cheio de sucata até a cooperativa e novamente ao chegar encontrou o sujeito da balança. Dessa vez, estava atendendo a um telefonema, fez sinal para Gumercindo esperar, após alguns minutos abriu o portão seguido por seus vários cães mansos, mas que latiam sem parar.
Ao ver o enorme saco nas costas de Gumercindo o indagou:
- Então, trouxe coisa boa?
- Acho que sim. – respondeu com cansaço pelo peso nas costas.
Levou meio corcunda o pesado saco até a balança e ao despejar o sujeito ficou feliz com o que viu novamente:
- Outras chapas de bronze! Você é um homem de sorte.
- Senhor acha?
- Isso é difícil achar, ninguém tentou te tomar?
Gumercindo pensou um pouco, lembrou dos dois homens que no fundo o observavam por outro assunto e desconversou:
- Não, eles estavam procurando comida e não ferro.
- Ah, Ah, Ah. – gargalhou o sujeito da balança e continuou com alegria na fala. – Você é uma figura, qual é seu nome?
- Gumercindo.
- É Gumercindo a vida é dura e se for mole cê não dura não. Mas faça o seguinte; está vendo aquele carrinho lá? – apontou o sujeito para um carrinho velho, feito de casco de geladeira, uma lataria improvisada com dois pneus bons que serviam com muita utilidade para carregar sucata.
- Estou. – respondeu Gumercindo.
- Então eu te dou ele em troca dessas chapas de bronze, você aceita? É melhor que carregar peso nas costas.
Gumercindo viu o carro de geladeira, pensou, pensou e comentou:
- Mas é que eu preciso almoçá , tô com fome então preciso de uns trocados.
- Bem, já sei cê quer tomar umas cachaça não é mesmo? – Perguntou o sujeito da balança com bom humor.
- Não eu não gosto de bebida.
- Me engana. – desafiou o homem e sugeriu: - Façamos o seguinte, eu te pago um marmitex e te dou o carrinho em troca dessa sucata, feito?
- Marmitex?
- É uma marmita cheia de comida boa.
- Então aceito, se me der comida e o carrinho, aceito sim.
- Beleza, agora mesmo vou ligar para trazerem nosso almoço, vou pedir uma para mim também.
O sujeito da balança foi ao telefone e fez o pedido em pouco tempo, um motociclista trazia a encomenda. Gumercindo estranhou a embalagem laminada do marmitex.



A segurou e sentou-se num canto da Cooperativa junto à sacola do marmitex, encontrou uma colher e um garfo de plástico, utilizou a colher, achou excelente o cardápio, forrado de carne e legumes.
Em poucas colheradas cheias, Gumercindo comeu a marmitex, lambeu a embalagem cortou um pedaço do lábio, onde saía gotas de sangue. O sujeito da balança fazia sua refeição numa mesa de seu escritório improvisado no centro da Cooperativa e evitava falar nos intervalos de cada colherada.
Gumercindo descansou em silêncio e sentia-se melhor, aos poucos as histórias a respeito de São Paulo que ouvia no Ceará se concretizavam.
A cidade que tinha fartura, trabalho, muitos trocados para receber, acabou descobrindo no lixo. Ali sentiu que conseguiria sobreviver e se continuasse com aquela sorte, imaginava que poderia conseguir um local para morar, deixando para trás seu canto embaixo da ponte.
Após o almoço levantou-se, caminhou até ao carrinho que agora lhe pertencia e orgulhoso saiu á procura de mais sucata.
Refez o já conhecido trajeto da Cooperativa ao lixão e já sem a ajuda dos urubus chegou ao local de seu garimpo.
Quando chegou com seu carrinho de geladeira, os outros catadores cresceram os olhos, atentos invejavam Gumercindo vasculhando o lixo. Achavam estranho ele haver conseguido um carrinho de geladeira em pouco tempo.
Estava alegre e não conseguia disfarçar sua alegria, ao procurar sucata, encontrou papelão e fios de cobre, plásticos com bom valor de venda na Cooperativa e encheu o carrinho voltando para vendê-los.

Ganhou alguns trocados, era tarde, pediu ao sujeito da balança outro marmitex, deixou o carrinho de geladeira na cooperativa e foi embora com seu jantar para uma noite de descanso embaixo da ponte.
Nos dias que se seguiram, Gumercindo continuou com sua coleta, às vezes trazia sucatas de valor outras vezes o que trazia era suficiente apenas para o almoço.
O sujeito da balança lhe oferecia banho todo dia em troca de algumas sucatas e aos poucos também lhe dava roupas limpas que não serviam para seu uso. A onça de seu estômago andava sumida naqueles dias, com vontade e disposição, fazia três coletas por dia e já era figura conhecida neste trajeto. Logo era conhecido e muitas pessoas já o chamavam pelo nome, seus trocados que sobravam, juntava e o guardava na cintura o transportando para onde ia.
Não pretendia gastar com qualquer coisa e pensava em comprar um local para morar, ou um colchão, pois mesmo acostumado com as noites embaixo da ponte, ainda sentia saudades da cama do aloja- mento. Seus ganhos aumentaram a cada coleta de sucata e sentia a cada dia os trocados aumentarem em sua cintura.
No lição os catadores evitavam conversar enquanto vasculhavam o lixo, mas durante um intervalo na coleta, dois catadores conversa- vam chamando a atenção de Gumercindo que se interessou pelo assunto da conversa:
- Então tu quer vender seu barraco? – perguntou um dos catadores ao outro.
- Tô vendendo. – respondeu o outro catador.
- Porque home?
- Tô cansado dessa cidade, de sofrê aqui... passá fome, vô vendê e voltá pro norte.
Gumercindo atento arregalou os olhos, coçou a cabeça com o
boné enterrado, deixou uma garrafa de plástico que acabara de apanhar num carrinho de geladeira e indagou o catador que falava:
- Tu quer vender um barraco é isso?
O catador espantado e levemente irritado com a indiscrição de Gumercindo ao ouvir sua conversa reservada com o outro catador, virou a cabeça observou Gumercindo e respondeu:
- Tô sim... quer comprá?
- Quanto é?
- Quinhentos real.
- Fica perto daqui?
- Fica, na favela... – Apontou o homem para a favela próximo ao lixão.
- Eu quero vê o barraco. – disse Gumercindo ainda com os olhos arregalados. O catador olhou para o outro que fez um sinal de interesse com a sobrancelha, então decidiu:
- Vamos até lá.
Gumercindo coçou sua barba que já havia crescido o suficiente para espichar e espichada de maneira assustadora como se aumentasse o tamanho do seu queixo, Gumercindo saiu pelas ruas da favela com seu carrinho de geladeira com pouca sucata e o empurrava com orgulho.
Chegou ao barraco do sujeito, eram dois cômodos e um banheiro, feitos de sobras de madeira e pedaços de plástico, ali viviam ele e Três filhos, além da mulher que preparava no quintal o que seria o almoço, usando latas de óleo vazias que improvisadas serviam de panela.
- é esse aqui o barraco, gostou?
Gumercindo olhou para as paredes improvisadas do barraco, para a vizinhança de barracos parecidos, outros diferentes, alguns feitos de tijolos. Estranhou o enorme morro bem em frente ao barraco, que ficava no seu começo embaixo de muitos lares.
Logo desviou sua atenção para as crianças, curioso viu o que sua mãe preparava e novamente o catador dono do barraco insistiu numa resposta interrompendo sua análise e seus pensamentos.
- Cumé gostou do barraco?
- Gostei, vô comprá.
- O dono do barraco espantou-se com a decisão de Gumercindo, e se perguntou se aquele sujeito esquisito, teria mesmo o dinheiro para pagar-lhe pelo barraco.
Gumercindo sem dizer nenhuma palavra, tirou da cintura um saco plástico de lá saiu um pacote cheio de notas de todos os valores. O dono do barraco boquiaberto ajudou a contar o dinheiro a pedido de Gumercindo, ao todo a soma era de mil e duzentos reais, bem guardados com muito suor.
- Esse dinheiro dá ? – Questionou Gumercindo com ingenuidade, não conhecia dinheiro, juntou para conseguir comprar um canto, um barraco, mas não sabia fazer contas e nem entendia de valor algum, imaginou que seu dinheiro era suficiente para a compra pela quantidade de coletas que fizera para arrecadá-lo e pelo tamanho do pacote de notas. Não confiou em perguntar para o sujeito da balança quanto tinha, temia que o roubasse, mas no dono do barraco confiou e sentiu pena por suas crianças, novamente olhou para as panelas de lata de óleo na fogueira e viu apenas água e fubá.

Acompanhe o livro Gumercindo: mandinga, pé-de-pato & quiproquós cada semana um novo capítulo

domingo, 21 de setembro de 2008

GUMERCINDO: MANDINGA, PÉ-DE-PATO & QUIPROQUÓS CAPÍTULO XI - ROMANCE DE RICARDO CUNHA


Desceram do prédio e Gumercindo se apressou em procurar o lixão. Caminhou pela cidade e observava vez por outra o céu, para seguir os urubus e encontrar com facilidade o lixão.
Andou bastante para chegar ao lixão, ao aproximar-se, via muitos caminhões de lixo que passavam lotados e voltavam vazios. O cheiro era parecido com o seu, há meses não tomava banho.
Chegou ao lixão e se apaixonou pelo local, várias pessoas vasculhavam as montanhas de lixo em busca de comida e sucata. Gumercindo sabendo que valia dinheiro, sentiu uma enorme fartura naquele local.
Com tanto lixo, tanta sucata não precisava pedir comida, ganharia o suficiente para se manter. Os urubus que viu no céu, pousavam próximo das pessoas e se afastavam com algum movimento involuntário dos catadores que os assustavam.
O espaço do lixão era enorme, cabia ali três ou quatro campos de futebol. O lixo jogado era pulverizado e aterrado num espaço preparado recebê-lo, de um modo desleixado e negligente.

As pessoas se aprofundavam nas montanhas de lixo e ali apanhavam o que podiam. Homens, mulheres, velhos e crianças, alguns famintos, comiam o que achavam:
Enlatados vencidos, carne podre de porco, de gado, de aves e até de gente. Era normal ver algum rato correr entre o entulho, sendo motivo de susto para os catadores.
Os urubus esperavam a análise e o aval de seu líder para atacar a carniça que encontravam e comê-la. Remexiam à procura do que mais queriam, e eram aceitos como verdadeiros donos daquele local.
Ali comiam, se encontravam e faziam seus ninhos, ao nascer os filhotes os deixavam à deriva e estes logo precisavam se enturmar ou custaria a própria vida, sua individualidade.
Os filhotes vomitavam quando viam gente, ou por desprezo ou nojo. Vomitavam a carniça que seus pais lhe deram e guardaram.
Vomitavam uma carniça podre que lhe foi dada e saia como necessidade fétida, horrorosa para qualquer humano.
Gumercindo descuidou-se ao caminhar pelo lixão e quase pisou num ninho de urubus com quatro ovos e três filhotes. Ao observá-lo os urubus abaixaram a cabeça e estranhamente não vomitaram como de costume e manifestavam como se sentissem seguros com sua presença.
Afastou-se do ninho e continuou a observar as montanhas de lixo disputadas com ansiedade pelos catadores. Então tentou contatos com as pessoas que não lhe deram atenção e continuava a busca apressadamente.
Gumercindo decidiu procurar sucata como faziam, apanhou alguns papelões enormes, um destes foi dividido por uma mulher que o puxou com força, o arrancando de suas mãos.
Procurou por outras sucatas, apanhou o que pôde, conseguiu uma enorme sacola, encheu com o que arrecadou e apressadamente levou para a cooperativa, seguindo o enorme trajeto que fizera novamente.
Ao chegar na cooperativa, foi atendido novamente pelo sujeito da balança, que pesava uma remessa de plástico prensado.
- Ah vejo que já conseguiu sucata. – comentou o sujeito da balança.
- Sim, consegui. – Respondeu Gumercindo, então levou a sacola que carregava nas costas e jogou o que continha no chão.
- O que é isso? – impressionou-se o sujeito da balança: - Isso não vale nada, é só lixo, aí só tem enlatado, resto de comida e argh, carniça... Tira isso daqui. –irritou-se o homem, então Gumercindo juntou novamente o lixo que arrecadou, colocou na sacola que tinha e voltou ao lixão para devolvê-lo. Caminhou novamente, ao chegar apanhou o que pôde de papelão e ferro, lotou um enorme saco e já era noite quando retornou o longo caminho de volta à cooperativa.
Chegou e o sujeito da balança não estava mais ali, ao ser chamado por Gumercindo, o sujeito apareceu na janela do velho prédio e de lá gritou:
- Por hoje chega, agora só amanhã vou voltar a funcionar.
- Mas eu trouxe papelão e ferro dessa vez.
- Eu já tomei banho, coisa que pelo seu fedor você desconhece, não vou mais mexer com lixo hoje não.
- É que eu tô com fome, não comi nada hoje.
- Se vira parceiro, amanhã eu abro cedo. Boa noite. – despediu-se o sujeito da balança ao afastar-se da janela.
Logo as luzes do velho prédio da cooperativa se apagaram. Triste, Gumercindo seguiu para seu reduto embaixo da ponte.
Muito cansado, desabou num canto limpo quando chegou, e dormiu profundamente esquecendo da fome, do cansaço e da tristeza com o trabalho perdido daquela tarde.
Naquela noite, Gumercindo não sonhou e a sucata que arrecadou, serviu de travesseiro. O zum-zum dos carros não incomodaram seu pesado sono e permaneceram até ao amanhecer, quando o sono o abandonou e ele voltou a ouvi-los.
Zum, Zum, Roooommmmm ...
Soava bem alto na estreita ponte. Gumercindo abriu seus olhos e um frio na barriga anunciou que a onça de seu estômago começava a despertar.
No dia anterior não almoçou nem jantou, então temendo a angústia da fome somada a fúria da onça. Gumercindo levantou-se, apanhou o saco cheio de sucata e rumou em direção a Cooperativa.
Levou algum tempo para concluir o trajeto, ao chegar, avistou o sujeito da balança já trabalhando, pesando fardos de sucata.
Ao avistá-lo o sujeito da balança abriu o portão e Gumercindo adentrou feliz com o saco nas costas.

O sujeito da balança fez cara-feia ao sentir o fedor de Gumercindo e com ar repulsivo o questionou:
- Isso é sucata mesmo?
- Agora é, trouxe papelão e ferro.
- Então me mostre.
Fazendo o que o sujeito da balança pediu, Gumercindo apressou-se em mostrar a sucata que tinha no saco, virou de boca para baixo e despejou o seu conteúdo. Como dissera havia ali papelão e alguns pedaços de ferro que trouxera, o sujeito da balança se espantou.
- Ora essa, você é um cara de sorte.
- Por que?
- Essas chapas são de bronze, dão um bom dinheiro.
Gumercindo arregalou os olhos e abriu um sorriso, o homem pesou o bronze e lhe propôs um negócio:
- Vamos fazer o seguinte, você toma um banho no meu banheiro, te dou café com pão, algumas roupas velhas que tenho ali em troca dessas chapas de bronze.
Gumercindo gostou da proposta e sem pestanejar aceitou. O sujeito da balança realmente ganharia um bom dinheiro com aquelas chapas de bronze, então fizera um bom negócio.
Satisfeito mostrou o banheiro que havia o chuveiro e apressou em trazer algumas roupas velhas, porém limpas.
O banho durou mais de uma hora, sendo interrompido pelo sujeito da balança, aborrecido com a demora, Gumercindo sentia-se renovado, vigoroso com sua limpeza. Vestiu as roupas que ficaram largas, mas que serviu em seu corpo magro.
Junto com as roupas havia um boné com a marca da cooperativa estampada, o colocou na cabeça com seus cabelos crespos e espichados que nem lembrava quando cortou ou mesmo se o fez alguma vez.
A “onça” começava a bramir em sua barriga, então apressou o sujeito da balança:
- E o café com pão que o senhor ia me dar?
- Já vou lhe trazer. – respondeu o sujeito da balança, deixando o trabalho de lado e indo apanhar o que foi prometido.
Quando trouxe, Gumercindo fez festa, além do café, o sujeito da balança lhe trouxe pão, queijo e duas frutas: Uma banana e um ma- mão. Devorou o queijo primeiro entre goladas de café, em seguida o pão foi a vítima da “onça” e ao devorar as frutas ela já adormecia.
- E agora vou lá no lixão pegar mais.
- Beleza, isso mesmo, traz mais papelão e ferro, o que der para você trazer de valor eu compro.
Animado com as palavras do sujeito da balança e sentindo-se melhor com o trato que recebeu, Gumercindo apressou-se em buscar mais sucatas.
Encontrou as mesmas pessoas que viu no dia anterior e novamente elas o trataram com indiferença. Uma das crianças ao percebê-lo comentou com sua mãe:
- Mãe, ó aquele home feio de novo.
Gumercindo estranhou a atenção da menina e a desatenção da mãe para com a filha que continuava a revirar as montanhas de lixo em busca de entulho.
Então novamente viu um ninho de urubus, que abaixaram a cabeça ao percebê-lo. Um outro catador aproximou-se próximo do ninho para revirar o lixo, quando um dos filhotes vomitou enojando o homem.
Gumercindo então surpreso se afastou e começou sua busca. Novamente encontrou placas de ferro e bastante papelão, durante a procura arranjou outro enorme saco de estopa que estava pela metade com trigo.
Jogou o conteúdo no entulho, e colocou o que arrecadou dentro, nesse intervalo sentiu-se observado por dois homens, tal observação o incomodava. Então irritado levantou a cabeça e os fitou, eis que os homens eram os que o jogaram do pau-de-arara.
Espantados com a presença de Gumercindo e constrangidos, desviaram o olhar. Surpreso mas não envergonhado como os dois sujeitos, Gumercindo ergueu o saco e o colocou nas costas sem tirar os olhos deles.